sábado, novembro 26, 2022
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Após nove meses de guerra, conta do conflito não para de aumentar para a Ucrânia

A invasão russa à Ucrânia completa nove meses nesta quinta-feira (24), e a opinião unânime entre governos do Ocidente e analistas é que nada saiu do jeito que Vladimir Putin queria: a administração de Volodymyr Zelensky não caiu, os ucranianos realizam uma contraofensiva na qual já recuperaram o controle de Kherson (única capital regional que a Rússia havia conquistado desde o início da guerra) e as sanções pressionam a economia russa.

Entretanto, apesar do estímulo proporcionado pelas recentes
vitórias militares, também é consenso que a conta não para de aumentar para a
Ucrânia. O primeiro custo (e principal) é humano: o general Mark Milley, chefe
do Estado-Maior Conjunto dos Estados Unidos, informou na semana retrasada que mais
de 100 mil militares ucranianos teriam sido mortos ou feridos na guerra (a
Rússia teria sofrido baixas semelhantes), número mais alto já estimado desde
que o conflito começou.

Milley também apontou que cerca de 40 mil civis ucranianos teriam
sido mortos ou feridos, número bem superior às 6,6 mil vítimas civis fatais e
10,2 mil feridas estimadas pelas Nações Unidas até segunda-feira (20). A ONU
também calculou que 7,8 milhões de ucranianos buscaram refúgio em outros países
da Europa e 6,2 milhões foram deslocados internamente.

A conta para recuperar a economia ucraniana também vai
ficando cada vez mais salgada. O Fundo Monetário Internacional (FMI) projetou
que o PIB do país deve sofrer uma retratação de 35% em 2022 e a inflação deve
ser de 20,6%, já que o banco central do país tem emitido muita moeda para
compensar os impactos no orçamento público.

A Escola de Economia de Kyiv calculou que até setembro as
perdas diretas geradas pela guerra na agricultura da Ucrânia já somavam US$ 6,6
bilhões e as indiretas, US$ 34,25 bilhões, devido a impactos como interrupções
na cadeia logística, preços mais baixos para produtos voltados para a exportação
e queda na produção agrícola.

A mesma instituição estimou que, até o mês retrasado, a Ucrânia havia perdido mais de US$ 127 bilhões em infraestrutura, mas já se projeta um prejuízo muito maior porque a Rússia vem concentrando ataques contra os setores de energia, telecomunicações e outros nas últimas semanas.

Com o inverno chegando e o sistema elétrico cada vez mais
comprometido, o governo tem recomendado que a população utilize energia racionalmente
e que refugiados não retornem a suas casas até o fim da estação mais fria do
ano. Moradores de regiões recém-libertadas no sul foram orientados a se mudar
para partes mais seguras do país.

O jornalista brasileiro Luis Kawaguti, autor da coluna Jogos de Guerra, da Gazeta do Povo, esteve na Ucrânia nos primeiros meses do conflito e retornou ao país em outubro. Ele observou que os ataques de Putin à infraestrutura teriam o objetivo de quebrar o moral dos ucranianos, para que o apoio à resistência contra Moscou diminua.

“Do que eu vi, o pior problema é a eletricidade. Temos
blecautes cada vez mais constantes. Isso começou em outubro, a primeira chuva
de mísseis foi no dia 10, quatro dias antes de eu voltar à Ucrânia”, relatou.

“Foram pelo menos sete chuvas de mísseis nesse período. A
que mais prejudicou a região de Odesa, onde estou, foi a de ontem. Ficamos sem
energia e com praticamente zero conexão de internet e pela primeira vez eu vi a
cidade inteira sem luz. Porque antes faziam uma espécie de rodízio, alguns
bairros ficavam sem luz um dia, no outro dia outros bairros, meio que para
economizar. Mas ontem pararam até os bondes”, destacou Kawaguti.

Os bombardeios russos também comprometem o abastecimento de
água, ressaltou o colunista. “Vi muita gente nas ruas comprando água potável,
porque houve um rumor de que as conexões de água de Odesa haviam sido
destruídas, mas o fornecimento continuava até hoje de manhã. Uma cidade aqui ao
lado, Mykolaiv, já está há meses sem água, só uma água barrenta que não dá para
utilizar para praticamente nada, só para jogar na privada”, afirmou.

Com mais de 700 ataques contra a infraestrutura hospitalar
da Ucrânia, o atendimento de saúde é uma grande preocupação. Kawaguti relatou
que há muita gente saindo de Kherson e indo para Odesa, que tem uma condição melhor.

“Kherson ainda tem hospitais funcionando, mas há pessoas do
lado de fora e filas para atendimento, uma situação caótica. Vi gente parando
ambulâncias militares para pedir remédios. E a parte de aquecimento, nas casas
mais antigas é feito a gás, mas as mais novas dependem mais de energia
elétrica. Uma boa parte do aquecimento da Ucrânia depende, então, de energia
elétrica, isso está bem complicado”, afirmou o jornalista.

Custo da reconstrução

Um relatório recente do grupo de pesquisa americano
Brookings Institution, assinado pelos economistas Dave Skidmore, David Wessel e
Elias Asdourian, analisou os diversos estudos que estimaram os custos para a
reconstrução da Ucrânia – o próprio governo ucraniano apresentou em julho na
Suíça um plano de dez anos a um custo de US$ 750 bilhões. Pacotes de ajuda
estão sendo liberados ou planejados por governos aliados e instituições como o
FMI e o Banco Europeu de Investimento.

Skidmore, Wessel e Asdourian destacaram que os planos que
têm surgido possuem quatro pontos principais em comum. O primeiro é que a
reconstrução da Ucrânia deve modernizar não apenas sua infraestrutura, mas
também suas instituições econômicas, políticas e sociais, “proporcionando assim
uma ruptura decisiva com o passado soviético da Ucrânia e abrindo caminho para
que o país entre na União Europeia”.

Os dois pontos em comum seguintes são que os próprios ucranianos
devem definir as prioridades dessa reconstrução e da sua implementação e que os
países e instituições doadores devem supervisionar “rigorosa e cooperativamente”
esse processo, considerando-se a corrupção endêmica na Ucrânia.

O quarto ponto, talvez o mais importante, é que deve haver um horizonte claro para o fim dessa ajuda. “A reconstrução levará tempo – vários planos mencionam dez anos –, mas a continuidade da assistência indefinidamente prejudicaria a capacidade da Ucrânia de alcançar a autossuficiência. A assistência, pelo menos nos estágios iniciais da reconstrução, deve ser principalmente na forma de doações para evitar sobrecarregar a Ucrânia com dívidas incontroláveis”, escreveram os três economistas.

Fonte: Gazeta do Povo

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