domingo, fevereiro 5, 2023
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Aumento das tensões geopolíticas impulsiona indústria bélica – e coadjuvantes buscam uma fatia desse mercado

Com nenhuma perspectiva de cessar-fogo na Ucrânia e com outros
focos de tensão pelo mundo, como as ameaças da China a Taiwan, vários países
têm definido maiores orçamentos para defesa em 2023.

Os Estados Unidos planejam gastar US$ 857 bilhões na área,
um aumento de 7,6% em relação a 2022. Na França, estão previstos 43,9 bilhões
de euros, um aumento de 3 bilhões de euros, o maior incremento em quase 15
anos. Já a Rússia planeja para 2023 gastos em defesa de US$ 84 bilhões, mais de
40% superiores ao que havia previsto preliminarmente em 2021 para o próximo
ano.

Esse aumento dos orçamentos, é claro, deve representar um grande
incremento de demanda para a indústria bélica: embora consultorias como a
Deloitte enfatizem os desafios da inflação e dos gargalos da cadeia logística
para o setor, este deve ter um crescimento global expressivo em 2023.

Para o analista de segurança e defesa Alessandro Visacro, a
great power competition (conceito que se refere à disputa entre grandes
potências) fomenta a corrida armamentista, mas há dois pontos principais que
precisam ser considerados por esses atores.

O primeiro é o investimento nas armas corretas: o
especialista citou como exemplo a guerra naval, que tem como protagonista os
porta-aviões, onde são centradas as principais esquadras do mundo.

“Só que essa concepção de guerra naval está sendo colocada
em xeque pelo desenvolvimento de fogos de maior alcance e precisão, ou seja,
mísseis, sobretudo de cruzeiro, tendem a engajar as frotas dos porta-aviões
antes que eles possam ser engajados pelas aeronaves embarcadas. Se isso
acontecer, do mesmo jeito que entre a Primeira e a Segunda Guerra Mundial o
porta-avião tornou obsoletos o cruzador e o encouraçado, esses fogos de maior
alcance e precisão podem fazer o mesmo com os porta-aviões”, explicou Visacro.

O segundo ponto a ser considerado, de acordo com o analista,
é buscar uma certa independência de insumos que garanta uma sustentabilidade à
produção.

“Não adianta desenvolver uma aeronave excelente se houver
dependência de um insumo ou tecnologia crítica, de uma matéria-prima, um
supercondutor, um microchip… mesmo eu tendo a linha de produção, o know-how
da integração dos sistemas, eu posso ter minha produção comprometida por um
embargo tecnológico ou econômico, por exemplo”, destacou.

Entre as tecnologias que estão impactando muito a projeção
de produtos de defesa a curto e médio prazos, Visacro ressaltou a impressão 3D,
que vai baratear custos da indústria bélica, e a velocidade hipersônica.

Entretanto, o futuro aponta para a fusão de quatro
tecnologias: Inteligência Artificial, Big Data, computação quântica e redes de
comunicação 5G.

“Quando houver efetivamente a integração delas, o impacto
disso na conduta da guerra será muito significativo, porque vai elevar
drasticamente a automação das forças armadas. Muito daquilo que hoje é feito
pelo homem no campo de batalha, inclusive o processo decisório, vai começar a
ser feito pela máquina, o que, é lógico, suscita uma discussão ética, mas que
não vai impedir a incorporação de novos sistemas”, justificou Visacro.

O analista concordou que os movimentos de incremento
orçamentário da defesa indicam que a paz está distante, mas ponderou que por outros
fatores e não pelo desenvolvimento da indústria bélica em si (“há até quem
argumente que esse é um componente importante para a paz”, apontou). Nesse
sentido, Visacro repudiou o argumento de que crises artificiais são gestadas
para alimentar esse setor.

“Crises artificiais são um mito surgido antes da Primeira
Guerra Mundial. É lógico que as grandes indústrias que vivem do mercado de
defesa vão ter mais lucros e tentar empurrar seus produtos quando há mais
conflitos, mas elas não precisam criar crises artificiais para alimentar esse
mercado. Infelizmente, o que não faltam no mundo são crises, conflitos, guerras”,
argumentou o especialista.

Novos protagonistas

Enquanto os maiores produtores e exportadores de produtos
bélicos (Estados Unidos, Rússia, China, França) projetam crescimento das suas
indústrias do setor em 2023, coadjuvantes também planejam abocanhar fatias
desse mercado.

“Levando em conta as realidades da guerra em curso na Ucrânia
e da atitude visível de muitos países visando aumentar os gastos no campo dos
orçamentos de defesa, há uma chance real de entrar em novos mercados e aumentar
as receitas de exportação nos próximos anos”, disse Sebastian Chwalek, CEO da
estatal polonesa PGZ, à agência Reuters.

Ele disse que a empresa planeja investir nos próximos anos
mais que o dobro da meta que havia traçado antes da guerra na Ucrânia.

A Coreia do Sul é outro país que pretende se beneficiar das
tensões geopolíticas: uma reportagem recente da CNN apontou que, de 2012 a
2016, o país asiático tinha apenas 1% do mercado global de defesa e nos cinco
anos seguintes sua participação chegou a 2,8%, o maior aumento entre os 25
maiores exportadores de produtos bélicos do mundo. O país, hoje o oitavo nesse
ranking, planeja se torna o quarto na lista dentro dos próximos anos.

Para Alessandro Visacro, pela sua rentabilidade, a indústria
de defesa pode alavancar a economia de um país, mas investimentos no setor
devem ser feitos de forma equilibrada, “para que o desenvolvimento e o fomento
dessa indústria não se deem por meio de subsídios e incentivos que a médio e
longo prazos comprometam a economia como um todo”.

“O melhor exemplo disso foi a Guerra Fria. As corridas
armamentista e espacial impostas pelos Estados Unidos à União Soviética exauriram
os recursos da economia russa, porque Moscou se viu obrigada a priorizar isso
demais em detrimento de outros setores importantes e demandas sociais
legítimas. Esse desequilíbrio é perigoso”, alertou.

Entre os países que estão identificando possíveis nichos de
mercado, Visacro destacou a Turquia.

“A Turquia teve a intenção de comprar drones americanos e os
Estados Unidos se recusaram a vender, sobretudo drones armados, para os turcos,
que se viram obrigados a desenvolver seus próprios drones. E eles dizem que
essa foi a melhor coisa que poderia lhes ter acontecido, porque hoje a Turquia
é um dos principais produtores e exportadores de drones, sobretudo as loitering
munitions, os drones kamizakes, e drones armados também”, relatou o
especialista, que também mencionou o Brasil.

“A Embraer, com o projeto do [avião militar] KC-390, vai também nesse sentido, é um projeto muito ousado e de uma visão muito astuta, que objetiva ocupar o nicho de mercado que hoje ainda tem como protagonista o Lockheed Martin C-130 [Hercules] e suas dezenas de variantes”, pontuou.

Fonte: Gazeta do Povo

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