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Política e disciplina não combinam nos quartéis – 03/12/2022 – Elio Gaspari

É velha como a Sé de Braga a afirmação de que, quando a política entra num quartel por uma porta, a disciplina sai pela outra.

No princípio, um general pensa de uma maneira, e outro, de outra. Depois, a divergência passa aos coronéis, e assim sucessivamente.

Em algum momento os comandantes militares devem parar essa roda, pois já há gente chamando generais de “melancias” (verdes por fora, vermelhos por dentro). Chegou-se ao ponto de um sargento lotado no Gabinete de Segurança Institucional postar uma mensagem dizendo que Lula não subirá a rampa do Planalto no dia 1º de janeiro.

A turma da transição quebrou a cabeça para escolher um ministro da Defesa. Pode ser importante, mas não é tudo.

Os três novos comandantes das Forças assumirão seus postos com a tarefa de colocar ordem nas casas. Há chefes militares que empurram a disciplina com a barriga (Lyra Tavares, desastrosamente, em 1969) e chefes que a defendem com o pulso (Leônidas Pires Gonçalves, de 1985 e 1990, e Orlando Geisel, de 1969 a 1974).

Estão aí, calados, dois comandantes que chefiaram o Exército sem tumultos: Enzo Peri (2007-2015) e Gleuber Vieira (1999-2003).

Os dois sabem das coisas e afastaram-se da vida pública. Ouvi-los pode ser boa ideia. Ambos estão esquecidos, graças a duas regras de ouro do profissionalismo militar: Se você é paisano e não sabe quem é um general, ele é um grande oficial, e se ele passou por um grande comando e você se esqueceu dele, foi um grande comandante.

ESTATÍSTICA

O ministro Alexandre de Moraes, que cuida dos inquéritos das manifestações golpistas, está diante de duas estatísticas. Uma é horrível, a outra é didática.

A horrível é de Pindorama: ninguém foi preso pela baderna dos caminhoneiros de 2018. Ela quebrou uma perna do governo de Michel Temer, foram abertos dezenas de inquéritos e ninguém foi para a cadeia.

A outra vem dos Estados Unidos. No dia 6 de janeiro de 2021, uma multidão golpista invadiu o Capitólio. Pelo menos 955 cidadãos estão espetados na Justiça, cerca de 800 passaram pela cadeia e perto de 200 já foram condenados.

FARO

De duas pessoas que conhecem a política americana: A primeira garante que Donald Trump acabou.

A segunda acha que seu lugar será ocupado por Ron DeSantis, atual governador da Flórida, muito mais perigoso que Trump, por ser mais inteligente.

QUEM MATOU JANE STANFORD?

Saiu um excelente livro nos Estados Unidos, é “Quem Matou Jane Stanford?” (Who Killed Jane Stanford). Seu subtítulo diz tudo: “Uma história de assassinato, enganos, espíritos e o nascimento de uma universidade”. Todo baseado em fatos reais e documentados. O autor, Richard White, é professor de Stanford e já escreveu outro livro, sobre o surgimento das ferrovias americanas.

Leland Stanford e sua mulher Jane seriam um casal a mais na história americana se o filho Stanford Jr. não tivesse morrido aos 19 anos na Itália. Eles quiseram lembrá-lo e criaram na Califórnia uma universidade com seu nome.

O filantropo foi um dos Barões Ladrões do seu tempo e cravou o prego de ouro na estrada de ferro que uniu as duas costas dos Estados Unidos. Jane, sua mulher, foi uma senhora esquisita, que recebia mensagens do marido e do filho mortos. Nesses tempos, o presidente dos Estados Unidos e a rainha da Inglaterra também se comunicavam com o outro mundo. Jane Stanford foi envenenada em 1905, aos 76 anos.

Viúva, ela se metia com os currículos da Universidade Stanford e pedia a demissão de professores. Encantou-se com um jovem que se parecia com o filho morto. Desconfiava dos parentes, um dos quais dizia ter fotografado o espírito de Stanford Jr.

Sem dúvida, alguém tentou envenená-la com estricnina ainda em 1904 e ela sabia disso. O professor White narra a vida de milionários e futricas acadêmicas e na sua lista de suspeitos estão o mordomo, assistentes, criados, mestres e herdeiros. White conta sua história conhecendo a vida dos milionários e as intrigas universitárias.

Jane Stanford embarcou para o Havaí em fevereiro de 1905. Levava muitas malas, joias que valiam dois milhões de dólares em dinheiro de hoje e uma caixa de remédios.

No dia seguinte ao desembarque, passeou, jantou, tomou os remédios, passou mal e morreu. O médico, ao provar o que seria o bicarbonato da senhora, percebeu que nele havia estricnina. A autópsia achou vestígios de estricnina.

Nunca se soube quem matou Jane Stanford. O professor White ocupa metade do livro lidando com a pergunta. A investigação deslizou para o submundo do crime de Chinatown e da polícia da Califórnia.

White prova que todos os suspeitos mentiram, das assistentes de Jane ao criado chinês. Grandes interesses precisavam que não houvesse estricnina em envenenamento. Se Jane Stanford tivesse morrido de causas naturais, a universidade ficaria com uma boa parte da herança.

No dia 24 de março, quando Jane Stanford foi sepultada em San Francisco, deu-se o cenário inverso de “O Assassinato no Expresso Oriente”, de Agatha Christie. Naquele, foram todos. Neste, não foi ninguém, Jane teria morrido por causa de uma miocardite crônica.

Diante desse desfecho White escreveu: “A história não termina aqui. Alguém matou Jane Stanford.”

O professor White tem um irmão que escreve romances policiais. Conversando e lendo documentos e memórias, acreditam que desvendaram o crime.


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Fonte: Câmara dos Deputados

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