Jonathan Azevedo tem uma missão: arrecadar 1000 cestas básicas para o evento de Natal da Cruzada Social, projeto beneficente criado por ele para ajudar crianças do Vidigal, onde mora. Em maior escala, mudar a realidade de quem está ao redor, principalmente de jovens de comunidade, é o motor para a vida e a carreira dele.+ Quem Disse”Esse projeto vem muito das dificuldades que eu vivia com a minha família, antes do sucesso, antes de tudo. Minha mãe ou comprava comida, ou comprava um desodorante, uma roupa. Então, a comida a gente já entrega”, conta. Além da entrega de alimentos, o ator promove ainda ações com médicos, advogados, dentistas, entre outros profissionais, e conta ainda com a participação de diversos artistas em shows e brincadeiras para garantir a diversão das famílias assistidas.A festa será no próximo sábado (21), mas no momento desta entrevista, há cerca de uma semana, ele não tinha nenhuma cesta. Persistente, nos 12 anos de ação social Jonathan tem a certeza de que conseguirá cumprir a missão para que o projeto e a festa aconteçam. Aos 39 anos, ele se vê ainda no dever de ser exemplo para a nova geração, enquanto ele mesmo tenta criar uma criança, o filho Matheus Gabriel, de 6 anos.Jonathan Azevedo@hugobarbieriO ator, que sonha ainda em ter mais filhos, diz que a paternidade o mudou como um todo e que a chegada do menino fez ele “ver o mundo com mais cor”. “Nem sabia que viveria até os 40, sendo homem preto, e aí eu me deparo com uma criança maravilhosa e ela me faz querer viver 100, 200 anos. É essa a primeira mudança que o Matheus traz para mim, a vontade de viver, de mudar o mundo”, reflete.Nas redes sociais, Azevedo, nascido e criado na comunidade Cruzada de São Sebastião, no Rio de Janeiro, usa a voz que conquistou para falar aos milhões de seguidores também sobre autoestima e vaidade, coisas que, para ele, são intrínsecas. Empresário, ele toma conta da própria carreira através da empresa Carta Preta, tem uma marca de cuidados capilares, a EHRAIZ, e ainda se prepara para lançar um novo projeto no YouTube, revelado em primeira mão à Quem. “Quando eu era moleque, não via muita gente preta nesses lugares de patente alta, nem dentro da televisão, então, a minha autoestima foi moldada numa construção diária e a partir de uma busca muito grande”, diz.Jonathan Azevedo@hugobarbieriO que é o Cruzada Social?Esse projeto vem muito das dificuldades que eu vivia com a minha família, antes do sucesso, antes de tudo; eu fazia teatro no Nós do Morro e, na verdade só queria ter meus livros, fazer meu curso e não estar na rua. Minha mãe ou comprava comida, ou comprava um desodorante, uma roupa. Então, a comida a gente já entrega. O Cruzada Social é onde que eu fecho meu ano fazendo a compreensão do que o meu dever como artista não é só ser bem-sucedido, é mostrar que tem possibilidades da gente vencer na vida e que, antes de ajudar os outros, a gente precisa se ajudar. Foi estudando e buscando conhecimento que consegui levar retorno para minha comunidade. Quando e como ele surgiu?Um dia vi a [atriz e cantora] Roberta Rodrigues fazendo uma ação no Vidigal — ela juntava todos os amigos artistas e ligava para todos, pedindo dinheiro para ajudar, e juntou todas as crianças do morro num campo que tem aqui, encheu de brinquedos, com apresentações, shows e brincadeiras. Nesse dia eu falei: “Nossa, se eu for para ser artista, tá aí, quero ser igual a essa menina, fazer isso que ela faz. Se eu tiver sucesso, é isso que eu quero fazer”. Naquele dia voltei para casa e tive um sonho: ligava para um amigo meu, pedia uma cesta básica e ele aparecia com um caminhão. Acordei e, de fato, liguei, e conseguimos 38 cestas básicas. Isso foi há 12 anos. Distribuímos na comunidade para quem para quem estava precisando, não tinha evento, não tinha festa, nem nada. “Foi estudando e buscando conhecimento que consegui levar retorno para minha comunidade”E foi crescendo…No segundo ano, conseguimos mais cestas, mas fizemos a proposta de que as pessoas que doassem, viessem entregar. E aí um era dentista e via que o sorriso da senhora que estava recebendo faltava um dente ou alguma coisa e ele entendia porque que essa pessoa precisava de cesta básica — o sorriso dela estava afetado e, por isso, não conseguia ser contratada. Então, eles começavam a marcar dentista para essa senhora e ela começava a trabalhar e no outro ano ela não precisava da cesta, então podíamos ajudar outra pessoa. Isso aconteceu com meus amigos advogados, também, e assim sucessivamente. No terceiro ano ligamos para um amigo meu que o pai trabalha no [Hospital] Miguel Couto e pegamos um plantão inteiro do hospital e ainda vários amigos meus médicos para atender as crianças, além das cestas. Isso foi crescendo, crescendo e chegamos à proporção de levar o Filipe Ret três vezes para fazer show, o BK, o Chefinho, o Bielzinho… Muita gente. Os artistas mudam a vida das minhas crianças, porque hoje elas entendem que não é só ser famoso, tem algo muito maior. E é isso que me rege nessa jornada.Vi que esse ano você está tentando arrecadar 1000 cestas básicas. Já chegou lá? O que mais está planejando para a festa?Ainda não tenho nenhuma. Mas terei. Esse ano teremos ainda uma parceria com o Sesc e com o Basquete da Cruzada.Além disso você também tem uma empresa com viés social, a Carta Preta. Como ela surgiu?Criei a Carta Preta com minha amiga-irmã e empresária Juliana Reis para fazer pontes com empresas e artistas, para que eu possa apresentar projetos e lugares que necessitam de ajuda. Ela me mostrou um universo artístico mudando com essa questão da rede social e, quando fui crescendo e ganhando dinheiro, falei para ela: “a gente precisa pegar 10% de tudo que a gente recebe e investir não só em projeto social, mas nas pessoas também”. A empresa começou muito nesse lugar e, a partir dela, resolvi cuidar da minha própria carreira, também.Além desse empresariamento, o que é a Carta Preta?Capto recursos para que mulheres e homens pretos possam evoluir com educação e sabedoria. A carta branca na lei sempre esteve para dar o direito de destruir uma festa de preto, uma escola de preto, a capoeira e tudo que envolvia a proteção da cultura africana. Então, eu trouxe a Carta Preta com esses 10% para incentivar e proteger esses projetos, como uma roda cultural de rima na Rocinha ou o Basquete da Cruzada, o Batuque de Gala… Hoje temos uma biblioteca na Cruzada São Sebastião que leva o nome do projeto e é um orgulho para mim; lá temos todas as literaturas mais maravilhosas que pude ter acesso, de Conceição Evaristo a Ana Maria Gonçalves e Michael Jordan.No meio disso tudo, esse ano você lançou uma marca de cuidados capilares. Por que quis entrar no mercado de beleza?Porque eu sou a beleza em pessoa! (risos) Quando fui fazer cinema, fiz um personagem chamado Mosquito [em Operações Especiais (2015)] e coloquei dreads para ele, por decisão do diretor. E todo mundo me amou de dreads, inclusive eu, achei que tinha a ver com minha energia. Passei quase 13 anos sem cortar o cabelo e foi um acerto na minha vida, porque todo mundo me conhecia pela primeira vez pelo meu cabelo. Até que fui fazer um show e encontrei com Mano Brown e ele falou: “Ô, negrão, seu dread tá tá maneiro, mas está zoado, você tem que ir no Marquinhos, o cara dos dreads”. Era Marquinhos Baroni, que se tornou um padrinho para mim, um pai. Sentei na cadeira dele para refazer o cabelo e ele foi me contando sobre a cultura Rastafari e a beleza e a raiz dela na cultura preta. Quando saia de lá, procurava produtos pros meus dreads e não achava. Mesmo ganhando grana, eu não tinha produtos para mim. E aí um amigo meu, muito inteligente, que faz embalagens para remédio e fez uma pesquisa de mercado nesse sentido e me deu a ideia de abrir uma marca. Eu já vinha com essa veia empreendedora, já queria cuidar da minha carreira e cuidar da minha comunidade e topei. A partir daí demorei quase dois anos para poder escolher a fórmula perfeita e que fosse o mais acessível possível. O nome vem da raiz do cabelo e das raízes ancestrais, porque a beleza está na nossa história, na força e na resiliência do nosso povo.Jonathan Azevedo@hugobarbieriVocê sempre foi vaidoso e sempre se cuidou nesse sentido?Que eu lembre, não. A vaidade veio mais quando eu comecei a cultivar o cabelo rasta e quando eu conheci o acesso aos cuidados — porque ainda tem isso, o homem hétero não fala sobre se cuidar. Quando entrei no mundo do teatro, da arte, meus amigos gays começaram a me ensinar muito, minhas amigas mulheres também. Foi essa galera que me abraçou e falou: “Cara, tem como você melhorar isso aqui”, e eu fui aprendendo. E eu estava começando a ganhar uma merrequinha… Não é barato se cuidar, não vou ser hipócrita com isso, mas é possível e eu gosto muito. Vejo um lado positivo na vaidade, é uma questão de autoestima, você estará melhor e também se sentirá melhor. Sou um homem preto retinto e muito liberto de padrões — e sempre fui muito julgado por isso; até entre os pretos, eu era mais preto. Nesse Brasil da minha geração, em última escala, eu nunca era lindo, nunca era cheiroso, nem era o gostoso, eu era sempre o sangue bom. Comecei a me cuidar mais a partir daí e também graças a uma namorada, também, que me conectou muito com essa questão.Sendo um homem preto, é um tabu maior ou menor falar de vaidade e beleza?Muito maior. Primeiro há a perspectiva de que poucos [homens pretos] têm pai, então essa conversa já fica muito mais distante. O custo financeiro também distancia. As mães sempre estão zelando para que esses adolescentes possam ter um mínimo… Lembro da preocupação da minha mãe de eu não sair desajeitado para a rua, ela só não teve condições para dar aos filhos essa estrutura, quem dirá a comunicação e a informação de autocuidado. Tento na minha rede social falar muito sobre isso e também sobre moda, dizer que as roupas são apenas panos, não vão definir sua sexualidade… Minha missão é quebrar tabu. Uso do meu corpo, da minha sabedoria e da minha voz para que isso seja ressaltado. A autoestima salva vidas, te dá trabalho, lazer, direitos, faz você se aceitar e não querer ser aceito e esse é o maior barato.”Nesse Brasil da minha geração, em última escala, eu nunca era lindo, nunca era cheiroso, nem era o gostoso, eu era sempre o sangue bom” Como construiu sua autoestima?A partir de muita literatura, também. Tenho 39 anos, então, quando eu era moleque, não via muita gente preta nesses lugares de patente alta, nem dentro da televisão, então, a minha autoestima foi moldada numa construção diária e a partir de uma busca muito grande. Cresci numa favela no meio do Leblon, a Cruzada de São Sebastião, então, saía de casa e já estava sendo lembrado o tempo todo que eu tinha que atravessar a rua porque a madame queria passar. Minha autoestima foi sendo ferida em diversas maneiras. Sempre sonhei em poder ter condições de me vestir bem de ter acesso a coisas que eu não tinha; e eu consegui. Quando tive esses acessos, minha autoestima mudou, porque eu alcancei uma meta. Eu ainda não me aceito em diversas formas, ainda não me vejo em diversos lugares… É uma construção.Talvez você já tenha ouvido essa pergunta muitas vezes, mas, por que, mesmo com ascensão financeira, escolheu seguir morando no Vidigal?Em primeira instância, amo muito esse lugar e as pessoas daqui. Quando cheguei aqui, eu não tinha nada, só um sonho e nem sabia o que faria para realizá-lo. Foi na escola de teatro que descobri quem era o Jonathan, os poderes que eu tinha. Chego nesse lugar sem nada, conheço pessoas que também não tinham muito e elas estenderam a mão para mim e se tornaram amizades e afetos que me ajudaram a construir a pessoa que sou hoje. Eu tenho uma casa maravilhosa no Vidigal, meu filho vem para cá, gosta muito e sou muito acolhido e protegido aqui. Mas, hoje penso em transitar, em conhecer outros lugares — e porque eu quero que meu filho também conheça. Nunca morei em um lugar por mais de 2, 3 anos, em que eu podia pedir um delivery de comida e chegar na minha porta, não sei o que que é isso. Não sei o que é chegar, estacionar o carro e ir para casa. Não experimentei receber alguém aqui em casa e apenas dizer “é endereço tal e é só subir”, tenho que descer para buscar quem chegar. Estou me projetando para isso. Mas, se eu sair daqui, quando for, não vou tirar nada dessa casa, terei ela sempre como esse lugar onde me sinto em casa e posso ir e voltar. Eu optei por muito tempo estar aqui porque eu queria e só o fato de eu poder escolher me traz uma alegria muito grande, porque uma coisa que um homem preto e uma mulher preta quase não têm na vida é poder de escolha, ainda mais quando se fala de moradia. Falando do Matheus, como a paternidade te transformou?Muda tudo. Eu estava numa palestra esses dias conversando com o [professor] Jonathan Raymundo e a gente falou que a gente nem sabia que viveríamos até os 40, sendo homens pretos; e aí eu me deparo com uma criança maravilhosa e ela me faz querer viver 100, 200 anos. É essa a primeira mudança que o Matheus traz para mim, a vontade de viver, de mudar o mundo, de não querer ser melhor que ninguém, mas sim ser o melhor para você mesmo para que você possa ver essa criança crescer. Ele mudou meu jeito de pensar, de trabalhar, passei a ver o palco, que era um lugar que eu ficava para me curar, como um lugar de sobrevivência, de estrutura de vida. Eu já gostava de malhar, de cuidar da minha saúde, mas hoje eu me cuido muito mais. Me deu vontade de conhecer o mais o mundo. A paternidade me mostrou um mundo mais colorido, também. Quando descobri que ia ser pai, ganhei uma passagem para Disney e todo o enxoval dele eu ganhei no Estados Unidos. Fui aos Estados Unidos pela primeira vez graças ao meu filho. Jonathan Azevedo@hugobarbieriComo foi essa experiência?Quando eu cheguei na Disney vi a aquele mundo imenso de cores, com a infância que eu tive, pareceu que roubaram meus sonhos. Não quero que façam isso com meu filho e com nenhuma criança ao meu entorno. Tudo que eu desejo para o Matheus, quero poder desejar e trazer também para as crianças aqui do bairro. Quero poder colorir a vida de muitas delas, porque meu filho coloriu a minha vida e essa é a maior mudança que tive.”A paternidade me mostrou um mundo mais colorido. Matheus mudou meu jeito de pensar, de trabalhar. Me deu vontade de conhecer o mais o mundo”Tem vontade de ter mais filhos?Tenho e tenho muita vontade de adotar! Sou filho adotivo e quando vejo o número de adoção para crianças pretas, ainda mais retintas como eu, sei que ganhei na Mega Sena. Eu falo às pessoas que não consigo jogar em nada de sorte, porque a maior delas eu já tive, que foi é uma família. Não parei em nenhum abrigo, fui do hospital para casa da minha mãe. Fui muito abençoado.Como consegue dividir seu tempo para dar conta de tantas funções?Ficar parado me incomoda muito, é difícil. Minha mente foi criada dentro da necessidade, do caos, do barulho e preciso me preparar para o silêncio. Funciono muito mais rápido na escassez e sou sagaz para isso. Ainda estou cuidando dos meus; tenho que cuidar da minha mãe e espero que o Matheus consiga cuidar dele. Mas é nesse lugar que encontro a demanda de empreender.O que gosta de fazer no seu tempo livre, quando consegue encontrar esse silêncio?A coisa que me deixa mais calmo é ler, mas também gosto de escutar samba, pesquisar sambas enredo, estar com meu filho na minha casa, que é meu lugarzinho de paz…O que está planejando para sua carreira no próximo ano?Não vejo a hora de voltar a atuar! Me sinto tão vazio sem atuar, parece que está faltando um órgão dentro de mim. Mas quero muito voltar fazendo coisas novas. Tem os caminhos que eu percorri e os que a vida quis travar para mim e muitos personagens que faço, me pego pensando nos caminhos que a vida queria para mim. Mas eu não estudei para só isso. Peço a Deus e aos orixás, com muita força, que me abram os caminhos para coisas novas, para, sei lá, ser um médico, um escritor, ser uma pessoa bem-sucedida, de família, com questões diferentes, personagens que possam abrir a mente do público. Nunca fiz uma novela das seis, nem das sete, nunca tive um alívio cômico desses horários, quero muito poder me aventurar nesses lugares, também. Em 2026 lançarei meu canal no YouTube para falar de questões como eu estou falando aqui, coisas que muitas vezes não tenho acesso de falar, e também trazer pessoas incríveis que têm uma visão de mundo que pode acrescentar não só na minha vida, mas na de milhares de pessoas.Jonathan Azevedo@hugobarbieri
Fonte: TV Alagoas



