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Conheça o casal 60+ que ensina idosos a lidar com tecnologia e evitar golpes



ADRIELLY SOUZA
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Até poucos anos atrás, Maria Helena e Tarcísio Cabral mal podiam imaginar que passariam horas gravando vídeos, respondendo comentários e ensinando milhares de pessoas a usar o celular.
Engenheiros aposentados, eles entraram no universo das redes sociais por necessidade durante a pandemia. Hoje, aos 70 anos, comandam o 60demais, projeto que virou referência em inclusão digital para idosos e reúne milhares de seguidores interessados em aprender desde funções básicas do smartphone até formas de escapar de golpes virtuais.

Sem filhos a quem pudessem recorrer quando surgiam dúvidas sobre aplicativos e celulares, os dois precisaram aprender sozinhos. Vieram cursos de marketing digital, aulas sobre produção de conteúdo, edição de vídeos e um mergulho completo em um universo que, até então, parecia bem distante.

O perfil reúne mais de 170 mil seguidores no Instagram e atrai pessoas interessadas em usar a tecnologia a seu favor e a perder o medo de lidar com aplicativos, e até ferramentas mais avançadas, como o uso da inteligência artificial no dia a dia.

“Se a gente queria ensinar as pessoas a serem independentes, quem precisava ser independente primeiro éramos nós. Tivemos que aprender a gravar, editar, publicar vídeos e fazer tudo sozinhos”, afirma Maria Helena.

O sucesso surgiu de forma gradual. Depois de anos estudando o comportamento das plataformas digitais e desenvolvendo métodos próprios de ensino, eles passaram a compartilhar conteúdos voltados para um público frequentemente ignorado pela tecnologia.

Segundo Maria Helena, o diferencial está justamente na forma de ensinar. “As pessoas começaram a se identificar com o nosso jeito. É mais calmo, mais tranquilo. Nós entendemos como alguém da nossa idade aprende. Não adianta usar a mesma linguagem de quem nasceu na era digital”, diz.

A experiência profissional dos dois acabou ajudando na construção do projeto. Mas foi a convivência diária com idosos que revelou um problema ainda maior: a exclusão digital. Conselheiro de um plano de saúde, Tarcísio observa de perto as dificuldades enfrentadas por pessoas acima dos 60 anos.

De acordo com a pesquisa TIC Domicílios 2025, 81% das pessoas de 60 a 69 anos possuem um celular. Dos 70 aos 79, são 66%. Entre os de 80 anos ou mais, 35%. E eles não costumam ter muita intimidade com todas as funcionalidades do aparelho, algumas essenciais.

“Hoje a carteirinha do plano de saúde está no celular. O título de eleitor está no celular. A identidade está no celular. O problema é que muita gente não foi preparada para essa mudança”, afirma.

Para Tarcísio, há uma diferença importante entre o aprendizado dos jovens e o dos idosos. Enquanto adolescentes já nasceram inseridos no mundo digital e aprendem em grupos, compartilhando experiências com amigos e colegas, pessoas mais velhas tendem a se isolar com o passar do tempo.

“O jovem participa de várias comunidades. Já a pessoa idosa vai ficando cada vez mais sozinha. Isso traz solidão, mas também reduz as oportunidades de aprendizado coletivo”, explica.

Foi justamente para combater esse cenário que nasceu a comunidade criada pelo casal. Além dos conteúdos gratuitos, eles oferecem cursos e acompanhamento para alunos que desejam ganhar autonomia no ambiente digital.

Entre os temas mais procurados estão aplicativos bancários, serviços públicos digitais e, principalmente, a prevenção contra golpes.

“O golpista gosta de duas coisas: gente isolada e gente com pressa”, alerta Tarcísio. “Quando alguém cria uma situação urgente, a pessoa deixa de raciocinar e age por impulso. Nossa orientação é sempre parar, respirar e procurar ajuda antes de tomar qualquer decisão.”

Maria Helena reforça que a falta de familiaridade com a tecnologia torna muitos idosos alvos fáceis para criminosos. “As pessoas da nossa geração confiam muito no que os outros falam. Por isso insistimos tanto na questão da segurança digital. É preciso conferir, perguntar para alguém da família e nunca agir no impulso.”

Os resultados aparecem nos relatos dos próprios alunos. Muitos chegam ao curso dependendo de filhos ou parentes próximos para tarefas simples, como pedir um carro por aplicativo ou acessar documentos digitais. Depois, passam a realizar essas atividades sozinhos.

“Uma aluna disse para nós que aprendeu a compartilhar a localização durante uma viagem e ganhou muito mais segurança”, conta Maria Helena.
Outro caso citado pelo casal é o de uma estudante de 65 anos que, após aprender a usar o celular, decidiu fazer uma compra online pela primeira vez e se matriculou em um curso de inglês.

“Uma coisa vai puxando a outra. Quando a pessoa percebe que consegue aprender tecnologia, ela ganha confiança para aprender qualquer coisa”, afirma Tarcísio.

Apesar do crescimento acelerado do projeto, os dois garantem que o propósito continua o mesmo: ajudar pessoas da própria geração a não ficarem para trás em um mundo cada vez mais conectado.

“A nossa geração não precisa ser excluída digitalmente”, diz Maria Helena. “Ela precisa estar incluída, comunicando-se com a família, acessando serviços e vivendo com autonomia.”

Para Tarcísio, o impacto do projeto vai muito além da tecnologia. “Hoje a gente se sente realizado por cumprir um propósito. Não é só ensinar alguém a mexer no celular. É devolver independência, confiança e qualidade de vida para pessoas que achavam que não conseguiriam mais aprender.”

CINCO DICAS DO CASAL PARA GANHAR AUTONOMIA NO CELULAR
1. Aprenda um pouco por dia
Reserve apenas 10 minutos diários para explorar uma função do celular. Pequenos avanços constantes costumam ser mais eficazes do que tentar aprender tudo de uma vez.
2. Faça a pausa dos 10 segundos
Antes de clicar em links, responder mensagens suspeitas ou fazer um PIX, pare e se pergunte: “Eu estava esperando receber isso?”. A pausa ajuda a evitar golpes.
3. Escolha uma tarefa para fazer sozinho
Aprenda a realizar sem ajuda atividades como marcar consultas, acessar exames, usar aplicativos bancários ou pedir transporte. A autonomia digital traz mais independência.
4. Use a tecnologia para se aproximar da família
Aprender a fazer chamadas de vídeo, compartilhar fotos e usar redes sociais pode fortalecer os laços entre diferentes gerações.
5. Transforme o celular em um assistente pessoal
Use o aparelho para organizar compromissos, controlar medicamentos, consultar mapas, registrar ideias e tirar dúvidas do dia a dia.

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Fonte: Notícias ao Minuto

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