Barbara Reis tem se destacado na novela Três Graças, novela em que interpreta Lena, uma mulher que vive a frustração de não conseguir engravidar e acaba decidindo comprar uma criança — no caso, o bebê recém-nascido de Joélly (Alana Cabral). Com a personagem reverberando na trama de Aguinaldo Silva, a atriz passou a ser abordada de forma diferente pelo público, seja pessoalmente, seja nas redes sociais.”As pessoas me abordavam falando ‘onde está a barriga falsa?’ ou ‘não leva o bebê da Joélly’. Isso me deixou muito feliz. Mesmo que a minha personagem não esteja todo dia na tela dos brasileiros, ela está dentro da história. A personagem é complexa”, afirma a atriz, que gosta da repercussão do personagem, independentemente da quantidade de cenas que tenha na história.Três Graças é a primeira novela que Barbara faz após ter vivido a mocinha de Terra e Paixão (Globo, 2023). A atriz afirma não perseguir o posto de protagonista e garante que seu objetivo é contar histórias relevantes. “Sabia do poder de complexidade desta personagem. Tenho um trabalho árduo. Não existe papel menor, o que existe é entrega. Tenho conseguido que as pessoas sintam raiva e sintam pena da Lena.”Casada com o ator Raphael Najan, com quem produz a peça Limítrofe, em cartaz no Rio de Janeiro, Barbara afirma ter vontade de ser mãe, mas não estabelece datas para isso. “Vejo a maternidade como um projeto de vida importante, mas precisa acontecer em um tempo certo para mim. A pressão existe, mas eu me respeito muito. Pensando nisso, congelei óvulos. Para ser mãe, acho que preciso estar preparada emocionalmente, com uma estrutura de vida que me permita viver essa experiência e consiga estar presente”, conta. Diagnosticada com lipedema no ano passado, a atriz adotou novos hábitos e realiza um tratamento conservador. “Evito alimentos industrializados, glúten, farinha branca. Estou tratando há quase um ano e perdi 10 quilos”, afirma. Criada no Méier, a atriz vive com o marido e duas cachorrinhas de estimação, Zara e Betânia, e faz questão de se manter fiel às raízes. “Continuo morando na Zona Norte do Rio. É uma opção minha. É uma região que atende as minhas expectativas em relação ao que preciso, a comércio, transporte. Sou simples nas minhas escolhas.”Quem: A Lena, sua atual personagem, tem dado o que falar em Três Graças. Como avalia esse atual momento da carreira?Barbara Reis: Na profissão, o que eu mais prezo assim é fazer personagens que tenham repercussão, mas não repercussão pela repercussão. Quero que tenham impacto pela profundidade. A Lena é uma personagem que começou a ser desenvolvida a partir do momento que o bebê da Joélly (Alana Cabral) nasceu. Foi aí que percebi como as pessoas realmente estão acompanhando e gostando desta novela. Durante o Carnaval, as pessoas me abordavam falando “onde está a barriga falsa?” ou “não leva o bebê da Joélly”. Isso me deixou muito feliz. Mesmo que a minha personagem não esteja todo dia na tela dos brasileiros, ela está dentro da história. A personagem é complexa.Barbara ReisMarcio FariasHá uma abordagem tanto nas ruas, como nas redes?Recebi um relato tocante de uma seguidora – que não mora no Brasil – parabenizando o meu trabalho, mas contando que nem sempre assiste às cenas da Lena porque ela descobriu que ela é filha de um tráfico humano. Foi um baque na vida dela porque a descoberta é recente e ela já é uma mulher já 40+. Ela contou que sempre foi muito cobrada. A família queria uma perfeição. Só nesta fase da vida, ela descobriu onde estão os pais biológicos, que já são idosos e está cuidando deles. Apesar da dor, ela vive um momento de reencontro com a ancestralidade. Acho que a disseminação da informação muito importante. A arte traz o debate uma questão social. Não é algo que só acontece longe, lá fora. Pode acontecer aqui, em Manguinhos e muita gente não sabe disso. Adolescentes e pessoas em situação de rua vendem também seus filhos para trocar por droga, situações assim.Todas as Flores foi um trabalho que marcou e, sob outro ponto de vista, também adordava o tráfico humano. Como noveleira, acho que a personagem que te colocou em um outro degrau. Você também enxerga dessa forma?Eu sinto isso também assim, como realização artística. Até então, eu não tinha vivido um personagem com aquela importância. A Débora era uma das antagonistas de Todas as Flores. Era uma personagem que agia com frieza, sem compaixão, uma mulher misteriosa. Na vida, temos luz e sombra e queremos fugir das sombras. A Débora era uma personagem totalmente na sombra.Todas as Flores te impulsionou para o protagonismo em Terra e Paixão?Acredito que a Débora tenha sido um trampolim, sim. Estava no ar em Todas as Flores, quando rolavam os testes para Terra e Paixão. No nosso meio, quem não é visto não é lembrado. Uma coisa eu sei: a morte da Débora, em Todas as Flores, já estava prevista. Não deixei o elenco de uma novela para entrar na outra. Coincidiu de dar certo. Em dezembro de 2022 terminei uma, e já em janeiro comecei a gravar a outra.Barbara ReisMarcio FariasDepois de ter protagonizado Terra e Paixão, você está em um papel central em Três Graças. Muitas vezes, a pessoa acha que conquistou um protagonista e vai ser protagonista para sempre. Há uma frustração nisso?Não, em nenhum momento eu pensei sobre isso. Sabia do poder de complexidade desta personagem. Tenho um trabalho árduo. Não existe papel menor, o que existe é entrega. Tenho conseguido que as pessoas sintam raiva e sintam pena da Lena. Estou extremamente feliz de fazer a novela do Aguinaldo (Silva).Você não vem de uma família do meio artístico e a carreira é instável. Sua família te apoiou quando decidiu ser atriz?Minha família sempre me apoiou o meu desejo, o meu sonho profissional, mas sempre falando sobre a importância de ter um segundo caminho. Educar é apoiar e também indicar um outro caminho. Meus pais fizeram isso. Cheguei a prestar concurso público porque minha mãe falava que seria bom ter um plano B. Fiz faculdade de Jornalismo e de Rádio e TV. Não cheguei a concluir uma das duas, porque quando surgia uma oportunidade como atriz, eu optava por trancar e não consegui concluir. A vida de atriz engrenou. Além disso, minha mãe tem um pet shop há 14 anos e eu trabalhava com ela.Barbara Reis em três destaques profissionais: a antagonista Débora em ‘Todas as Flores’ (Globo, 2022), a heroína Aline em ‘Terra e Paixão’ e a polêmica Lena de ‘Três Graças (Globo, 2025)TV GloboComo era esse trabalho no pet shop?Enquanto fazia testes, ensaios e peças de teatro, eu trabalhava com minha mãe no pet shop. Foi um período de cinco anos de muita ralação. Eu trabalhei como tosadora no pet shop e adorava. Precisei sair quando entrei para a televisão e não conseguia mais dar conta da rotina de gravação e trabalho no pet shop. Tive que pedir demissão para minha mãe (risos).Você sempre teve afinidade com pets?Sempre cresci com cachorros. Atualmente, tenho a Maria Betânia e a Zari, duas cadelas. Já chegamos a ter nove cães em casa. Muitos eram abandonados no próprio pet shop. Tivemos situações em que a pessoa deixa o cachorro para dar banho e não volta mais para buscar. A Maria Betânia também é fruto de uma adoção. Ela veio das enchentes do Rio Grande do Sul e está com a gente há um ano e meio. E e seu marido também compartilha esse gosto pelos animais?Ele ama também. Quando mostrei uma foto da Maria Betânia na feira de adoção, ele nem pestanejou com a minha ideia de adotar. A Zara tem 12 anos e morava na casa da minha mãe e trouxe para fazer companhia para a Betânia.A casa da sua mãe fica no Méier, no Rio. E você? Optou por morar mais perto dos Estúdios Globo?Não, eu continuo na Zona Norte. É uma opção minha. É uma região que atende as minhas expectativas em relação ao que preciso, a comércio, transporte. Continuar morando na Zona Norte é estar com as minhas origens, perto dos meus pais. Sou simples nas minhas escolhas. É óbvio que eu também gosto do que é bom, do que é bonito, mas sinto que temos uma condição de vida muito boa por aqui, sabe? Não tem nada de que reclamar.”Continuar morando na Zona Norte é estar com as minhas origens, perto dos meus pais. Sou simples nas minhas escolhas”Quando você fala que gosta do que é bom e do bonito, você pensa em quê? O que te encanta? Se permite algum luxo nas compras?Sou libriana. Gosto de me vestir bem, gosto de decoração, mas eu tenho um sério problema em escolher. Quando o assunto é comprar, eu evito muito ir para shopping comprar coisas. Compro muito na internet aquilo que preciso especificamente. Gosto de viver com o que eu tenho em casa. E também gosto de me desfazer daquilo que não uso mais. Quando você se desfaz, a prosperidade vem. No meu guarda-roupa, por exemplo, prefiro ter peças-coringa. Barbara ReisMarcio FariasJá teve um movimento contrário, alguma fase que se viu mais consumista?Com certeza. Na adolescência ou como jovem-adulta, há aquele desejo de pertencer. Eu fui muito para esse lugar do consumismo, mas entendi que as roupas estragam e que gastar dinheiro com isso não era o melhor, né? Comecei a investir meu dinheiro em viagens.A consciência financeira veio quando?Meus pais sempre aconselharam e sempre me educaram. Fui criada em um ambiente de conscientização. E também há a consciência individual, né? Sou muito atenta com sustentabilidade. Quais hábitos estão na sua rotina?Em casa, separamos o lixo orgânico do lixo seco. Não uso mais absorvente interno há uns seis anos. Opto por calcinhas reutilizáveis ou copinho coletor. Em casa, o nosso desodorante é aquele de pedra, que dura dois anos, porque me incomodava muito o descarte das embalagens. Descartar uma embalagem de alumínio por semana, pô? Minhas cachorras usavam aqueles tapetes higiênicos para fazer xixi, mas decidi evitar esse descarte de lixo e comprei uma caixinha de grama natural. Além de ser ecológico, também gastamos menos dinheiro. Atitudes dentro da nossa própria casa contribuem para a saúde do meio ambiente. Barbara ReisMarcio FariasVocê e seu marido são alinhados nessas questões da casa?Em casa, o Raphael é super organizado e eu sou mais bagunceira. Tento sempre melhorar porque também me incomodo com a minha bagunça. Percebo que tive uma melhora significativa no quesito bagunça desde que a gente começou a morar junto. O Rapha é muito mais organizado e planejado. Ele é produtor cultural. A profissão exige que ele planeje mais. Eu sou mais fluida na vida, sabe? Deixo fluir. Nossa relação é equilibrada. Não podemos ser relapsos, mas também não podemos ser 100% planejados.Como a sua personagem tem esse desejo de ser mãe, imagino que surjam perguntas sobre seu desejo de ser mãe. É uma pergunta que causa incômodo? Sente alguma pressão?Vejo a maternidade como um projeto de vida importante, mas precisa acontecer em um tempo certo para mim. A pressão existe, mas eu me respeito muito. Pensando nisso, congelei óvulos, porque é uma forma de lidar com tranquilidade com relação a isso. Para ser mãe, acho que preciso estar preparada emocionalmente, com uma estrutura de vida que me permita viver essa experiência e consiga estar presente.”A maternidade precisa acontecer em um tempo certo para mim”A nova geração de crianças cresce com uma maior representatividade nas telas. Você, quando criança, sentia falta de ver meninas como você na TV?Fui uma criança muito noveleira. Desde menina, eu tinha essa vontade de fazer televisão, teatro… E não tinha mesmo essa representatividade em papéis de destaque. Era sempre no lugar da empregada, de subserviência. E eu pensava assim: “Ah, um dia eu vou ser uma empregada numa novela”. Também me colocava nesse lugar, entende? Quando veio Taís Araujo fazendo Da Cor do Pecado e, depois, Viver a Vida, eu pensei: “É possível”. Percebo que falam mal de Viver a Vida, que foi um fiasco… Para mim era um sucesso. Eu assistia todos os dias. Via Taís Araujo como protagonista, no papel de uma modelo rica e bemsucedida. Tivemos avanços importantes nos últimos anos, mas ainda muito a caminhar porque a inclusão também tem que acontecer nos bastidores, no roteiro, na direção, na produção, não só à frente das telas. Quando existe a diversidade nesses lugares, as histórias ficam mais verdadeiras, mais representativas. A presença deve ser cada vez mais natural e constante.Quando você pensa no seu futuro, daqui a 10 anos, como gostaria de se ver?Daqui 10 anos? Passa rápido. Já terei completado 45. Posso até dizer que espero que já seja mãe. Quero voar alto na minha profissão, com personagens maduras, com personagens que que continuem contando histórias relevantes. Imagino que, talvez, eu nem esteja morando mais no Rio de Janeiro. Quero continuar tendo um cantinho no Rio, mas me imagino com um cantinho no interior. E também espero realizar muitas produções com o meu marido. Temos nossos projetos pessoais de teatro e de audiovisual também. Quero que a nossa produtora frutifique, ganhe projetos relevantes e concretos.Como tem sido o trabalho como produtora?A peça Limítrofe é produzida por mim e pelo Rapha. Ele atua com a Malu Falangola e Oscar Calixto, e fica em cartaz no Teatro Ipanema, até 29 de março. Essa é nossa primeira gestação enquanto produtores culturais. Nós não temos nenhum incentivo, nenhum patrocínio, é nosso investimento. A gente quis fazerna raça, porque estava pulsando dentro de nós. Ele atua, produz e é a cabeça da produção. Ajudo na produção, participei de todo o processo. Nós estamos com a nossa alma e nossa identidade. É um espetáculo que nos deixa orgulhosos. É um espetáculo que fala sobre saúde mental, assunto latente hoje em dia.A gente fala sobre a saúde mental pela lente de três artistas — um ator, um escritor e uma bailarina. Com esses personagens, mostramos como o mercado é cruel com com os artistas, mas qualquer profissão pode se identificar porque é um assunto universal. As pessoas saem leves e tocadas com o espetáculo, que é um dramédia, drama com comédia.Barbara ReisMarcio FariasE a questão de saúde mental para você? Quando passou a dar mais atenção a ela?Quando você cuida da sua saúde mental, você também cuida da saúde física. A pandemia fez com que a gente convivesse com os nossos silêncios, com a nossa casa, com o nosso ciclo familiar. Eu ainda morava com os meus pais e percebi como o exercício físico realmente melhora o nosso bem-estar. Os cuidados com a saúde mental devem ser constantes. Faço análise justamente até para para não sucumbir às redes sociais, um lugar de muita pressão.As redes sociais provocam comparações tóxicas.Você se vê refletido na produtividade do outro. Tomo bastante cuidado para entender quem sou eu, manter minha essência. Não anseio ter que estar sempre produzindo algo. Tenho que ter consciência do meu caminho e perceber se não estou caminhando junto com a manada. Acordar às 5 horas da manhã para ir para a academia e fazer post? Por mais que eu faça isso, não preciso publicar. Sempre me puxo para o meu eixo. Tem alguma rotina de atividades físicas?Tenho obrigação, principalmente porque tenho lipedema. É uma condição de saúde que se eu não fizer exercício físico e não tiver uma alimentação adequada, a lipedema avança. O exercício físico me ajuda a desinflamá-lo e a ter menos peso nas pernas. Por exemplo, ontem, estava com muita cólica e tinha que ir para academia às 8 horas da manhã porque meu personal estaria me esperando. Meu pensamento inicial foi “não vou”, mas decidi ir mesmo assim. Sabia que teria uma sensação muito melhor. Fui à academia, a cólica passou, fiz exercícios… Fiz isso por mim. A atividade física está no meu dia a dia e me traz bem-estar. Não estou em busca do corpo perfeito. “A atividade física está no meu dia a dia e me traz bem-estar. Não estou em busca do corpo perfeito”Quando você foi diagnosticada em lipedema?Em agosto do ano passado tive o diagnóstico, mas convivo com isso desde a minha puberdade. Depois da minha primeira menstruação, meu corpo começou a mudar e percebi que a organização da minha gordura corporal era diferente de outras meninas. O lipedema é um acúmulo desordenado de gordura e muda a textura da pele — é uma gordura granulosa. Isso causa inchaço, hematomas, retenção de líquidos e peso nas pernas. E como é um tratamento?Eles chamam de tratamento conservador, com uma alimentação anti-inflamatória. Evito alimentos industrializados, glúten, farinha branca. Consequentemente, quando você tira tudo isso, você tem um déficit calórico, emagrece e melhora todo o teu aspecto metabólico e a aparência do seu lipedema. Estou tratando há quase um ano e perdi 10 quilos.Barbara ReisMarcio FariasUma perda significativa!Hoje, meu corpo ele não está inflamado, ou seja, eu estou com o meu lipedema controlado, mas é um controle que é para o resto da vida. Se eu é parar de fazer dieta, ele pode ficar descontrolado e pode avançar. Sempre que eu sair do do eixo alimenta e de atividade física, ele inflama e volta.Quando você teve esse diagnóstico, foi um alívio ou um susto? Foi um alívio. Sempre fazia a dieta para poder melhorar o aspecto da minha perna. E nada funcionava. Quando eu tive o diagnóstico, soube que precisaria adotar uma alimentação anti-inflamatória e foi exatamente por isso que eu perdi 10 quilos e comecei a melhorar a aparência do meu lipedema. Consegui combater aquilo que me incomodava há tanto tempo.”Sempre fazia a dieta para poder melhorar o aspecto da minha perna. E nada funcionava. Quando eu tive o diagnóstico de lipedema, adotei uma alimentação anti-inflamatória e perdi 10 kg”No início do nosso papo, você falou sobre o Carnaval. Tem vontade de voltar a desfilar ou de se tornar rainha de bateria?Tive uma experiência transformadora e incrível com o Carnaval, mas exige uma dedicação muito intensa. Em 2025, desfilei pelo Salgueiro e voltaria a desfilar se realmente puder me dedicar. No ano passado, eu estava com tempo para me dedicar. Não sei se eu tenho vontade de ser a rainha de bateria. A dedicação da rainha de bateria é elevada ao cubo, né? Acho que, no momento, prefiro curtir no camarote, sair na diretoria ou, quem sabe, no carro alegórico. Neste ano, cantei samba enredo de todas as escolas de samba. Estou com 36 anos, sabem quando você chega em um lugar e quer saber onde vai sentar? (risos).Barbara ReisMarcio Farias
Fonte: TV Alagoas



